A metafísica como literatura fantástica

Originalíssimas tanto na forma quanto no conteúdo, as Meditações Metafísicas são, ao mesmo tempo, um clássico da literatura, e uma das mais – senão a mais – influentes obras da filosófica moderna. À parte tudo isso, é também e sobretudo um convite à meditação, a um mergulho introspectivo orientado pela busca dos fundamentos da verdade.

No entanto, só cheguei a esse texto por obrigação. E um obrigação antecipadamente marcada pelo preconceito. Na minha cabeça, Descartes era a personificação da caretice – o pior de todos os vícios para minha geração. Mas, de cara, fiquei pasmo. Eu, um leitor de romances, poesias, peças teatrais, crônicas e que então começava a me envolver a sério com a filosofia, nunca tinha lido nada parecido. O que era aquilo? Até hoje não sei dizer. É teatral e cinematográfico; literariamente impecável; imprevisível e surpreendente do início ao fim. Vê-se que me apaixonei pelo texto – tanto que já perdi a conta das vezes que o reli. Borges escreveu que a metafisica é um ramo da literatura fantástica. Descartes é, até onde sei, o melhor autor do gênero.

Aos poucos e quase sempre por acaso, fui descobrindo a influência de Descartes na obra de autores do meu gosto. Gênios costumam exercer tal influência sobre outros autores que é possível ser contaminado por eles sem jamais tê-los lido. Um leitor de Cortázar, por exemplo, acabará influenciado por Kafka e Joyce sem saber. O mesmo se pode dizer de Descartes. Sua influência quase invisível se espalha muito além da filosofia.

Esse encantamento estético não me cegou para a profundidade das suas conclusões, especialmente aquela que demonstrava a centralidade da ideia de Deus ou do infinito para a apreensão da verdade do mundo.

O sentido deste texto é simplesmente partilhar minha experiência com as Meditações. Um experiência que, seguindo a recomendação de Descartes, fui também buscar fora dos livros.

Pratiquei Vipassana com os budistas orientados por S. N. Goenka . Fiz os Exercícios Espirituais de Santo Ignácio de Loyola, que presumo, Descartes também deve ter conhecido. Fiz questão de levar a sério a ideia de que as Meditações são uma verdadeiro experimento físico e mental, não um mero joguinho de argumentos, ainda que a isso também possam, e até devam, ser reduzidas – mas só depois de vividas em toda a sua radicalidade.

O que vai a seguir é um mapa, o mapa que desenhei depois de percorrer as Meditações de Descartes. Espero que seja útil a outros para que cheguem mais longe.


Escrevi capítulos curtos e deixei as notas para o final, porque o meu desejo é que este livro seja lido do início ao fim de um fôlego só, e relido em seguida, para que se tenha primeiro uma ideia geral da meditação, de seus objetivos, processos, argumentos. Depois de lido e relido o texto (o que não deve tomar muito tempo) a meditação deve ser experimentada fisicamente. Esta é uma experiência mental e física. Ou melhor, uma experiência que demonstra a indissolubilidade de corpo e espírito.

A leitura das Meditações Metafísicas é quase imprescindível. Digo “quase”, porque o texto foi pensado para ter uma relativa autonomia. Mas, como está todo referenciado nas meditações de Descartes, é óbvio que a leitura de, ao menos, as três primeiras ajudará muito. Além disso, as Meditações são um clássico da literatura.